Residência Artística DME em Seia · Longo-Hasselberg-Harlé | McEvoy | Rudel Rey



É com muito prazer que o Festival DME comunica os artistas selecionados para a residência artística DME, a decorrer durante o mês de Agosto, em Seia:

João Hasselberg, Marianne Harlé e Tomás Longo (PT)
Clovis McEvoy (NZ/GER)
Demian Rudel-Rey (AR/FR)

A residência artística DME em Seia conta com o apoio da Câmara Municipal de Seia e da Escola Superior de Turismo e Hotelaria do Instituto Politécnico da Guarda.

Informação sobre os projetos seleccionados


João Hasselberg, Marianne Harlé e Tomás Longo (PT)

"O homem observava a Terra que, como um íman, atraía os flocos de neve que caíam do céu. Com a sua cadência deliberadamente enfraquecida, caíam como penas, afundando no lago que, segundo os habitantes locais, foi criado nos primórdios da Terra, quando um gigante colossal caiu do céu. Ainda ali permanece, vivo, sendo o constante fluxo e refluxo das marés o ritmo suave do seu coração que ainda bate, e as violentas vagas de Inverno as suas convulsivas tentativas no sentido de se libertar. Lutava na forma oblonga do lago que quebrava a floresta, onde havia calma e luar e mil sombras e outros tantos reflexos, enfeitados da neve que reluzia como lantejoulas dispersas – no instante seguinte, tudo isto era um reflexo da multidão que percorria o esguio passeio junto da sua vidraria." - Interstícios, Tomás Longo


A partilha e o confronto de experiências será o mote para musicar o que o Homem observa, ouve e vê, com uma tolerância pelo abstrato segura, pois o nosso processo de composição será reproduzido imageticamente pela Marianne Harlé, que de uma forma sinestésica, irá recriar o que ouve no que vê. É este o preceito para o trabalho durante a residência artística - reproduzir de uma forma transversal as experiências, os espaços, os sons e as formas das intermitências temporais que nos rodeiam. 

Clovis McEvoy


O meu projeto é criar uma peça musical interativa para realidade virtual.

A nova peça que desejo fazer como parte de uma residência no DME em Seia, intitulada Approaching Stillness, aborda temas de devastação ecológica e extinção em massa de flora e fauna que estão ocorrendo atualmente no mundo natural. Acredito que o meio da realidade virtual está posicionado de maneira única para explorar esses conceitos com franqueza e imediatismo.

Approaching Stillness procura explorar os arquétipos ambientais que informam o relacionamento de cada cultura com a terra da sua origem e que, por sua vez, formam a partilhada herança humana do nosso mundo. Flora e fauna, praias e desertos, florestas tropicais e pastagens, montanhas e rios; os arquétipos que distinguem comunidades e as unem simultaneamente. Fico fascinado e perturbado com o deslocamento desses arquétipos das culturas que se formaram ao redor deles e com o apagamento da antiga herança ecológica de uma eternidade que todo o ser humano recebe por rito de nascimento - uma herança que ainda pode ser negada às gerações que nos seguirão.

Approaching Stillness apresenta um ambiente artisticamente maleável, onde atores audiovisuais referenciais e abstratos têm um senso de agência, de caráter e de vida. Um mundo fervilhante de vida e energia é aberto para exploração e manipulação; no entanto, cada ação tomada pelo público tem uma consequência e um custo. Cada escolha, cada ação espreita a cor e o timbre dessa paisagem - e belo como um jardim de formas sonoras abstratas gradualmente se move em direção ao inabitável e ao infértil, e como um grande senso de tranquilidade desce, os membros da plateia são convidados a contemplar a suas próprias ações dentro dessa experiência e o papel que elas desempenham na história do nosso mundo.

Demian Rudel-Rey (AR/FR)


Título do projeto (peça): Le chant d’Aristophane
Informação da peça: Peça para saxofone, eletrónica (fixa) e vídeo (360º)


O Banquete de Platão é um diálogo escrito por volta de 380 a.C. Aqui, Sócrates, convidado para um banquete, encontra-se com amigos. Durante a noite, os convidados decidem responder à pergunta "o que é amor?".
Assim, o projeto artístico consistirá na criação de uma peça em torno do tema "amor", utilizando o discurso de Aristófanes, personagem d’O Banquete. Esta obra será para saxofone, eletrónica e vídeo. Com esta peça queremos incentivar todos os habitantes do território a assistir à estreia deste projeto, porque não é apenas uma proposta artística, mas também uma introdução à filosofia que também explora a questão universal do amor. Le chant d'Aristophane será um eco de uma peça de ópera de câmara (chamada Qu'est-ce que l'amour) que será estreada em abril de 2021.
Quanto à estrutura da peça, haverá momentos com citações de outros discursos do mesmo texto Platónico. Aqui, criaremos diálogos sobrepostos (gravados anteriormente) que serão espacializados em diferentes pontos de som usando quatro alti-falantes. Esta é a razão pela qual o projeto exige um trabalho intensivo no vosso estúdio, equipado com um sistema quadrifónico. Na nossa opinião, este projeto criativo inclui uma parte pedagógica atraente, que leva a filosofia a diferentes idades públicas. Além disso, leva o público a temas filosóficos a partir de uma abordagem lúdica e usando sons que convidam as pessoas a um mundo imaginário e mágico que também está vinculado a textos extremamente profundos.
No que diz respeito à residência, o DME oferece condições extremamente favoráveis aos compositores, pois possui espaços de trabalho bem equipados. Por outro lado, o orçamento de produção para a vossa residência seria um apoio enormemente valioso e, se decidirem fazer isso, obtê-lo contribuiria enormemente para o desenvolvimento deste projeto.
Além disso, o intercâmbio e o trabalho com os artistas de Lisboa, com os conselhos do compositor Jaime Reis, proporcionaria uma experiência e visibilidade únicas do mais alto nível, porque o DME é, na minha opinião, um dos espaços artísticos mais relevantes para todos os criadores na Europa.

Se a organização considerar viável, será organizado um concerto no final da residência. Caso contrário, também é proposto fazer um seminário-palestra sobre a ópera em andamento que estou atualmente a escrever e como esse trabalho multidisciplinar é desenvolvido.


Biografias


Tomás Longo (Vibrafone e Composição) – Tomás Longo nasceu em Coimbra a 6 de Julho de 2001.
Terminou no ano lectivo passado o 8º grau do curso de Percussão do Conservatório Regional de Castelo Branco, onde pertenceu à Orquestra Sinfónica e à Big Band. Integrou as bandas filarmónicas de Idanha-a-Nova e do Retaxo, onde lecionou a classe de percussão.
Desde masterclasses e workshops a concertos dados com estes, constam: Aldovino Muguambe, Dave Boyd, Filipe Raposo, Filipe Faria, Marcel Pascual, Arezoo Rezvani, Tiago Matias, João Hasselberg, Desidério Lázaro, Eduardo Cardinho, entre outros.
Em 2018, funda o Tomás Longo Sexteto, com o projeto “A Pound for Ezra” e em 2019 o duo "The Man who stole The Riot Frame" com o aclamado pianista Filipe Raposo. Neste mesmo ano assume o estatuto de Artist-in-Residence em Idanha-a-Nova City of Music.
Para além dos projectos em nome próprio integra os Beira Brass Band.
É patrocinado pela marca de baquetas americana Mike Balter.
Actualmente estuda no Hot Club com o professor Paulo Santo.

João Hasselberg nasceu em Lisboa numa manhã fria, em Janeiro de 1986.
Estudou guitarra e piano na Academia de Amadores de Musica em Évora, curso que não concluiu em nenhum dos instrumentos porque cedo percebeu que não era aquela a sua forma de fazer nem de aprender musica.
Em 2004 entra na escola de jazz do Hot Clube de Portugal (onde começa a lecionar em 2011) onde estuda baixo eléctrico e contrabaixo. Edita pela Clean Feed records o album “Snug as a gun” com IMI Kollektief, um colectivo internacional de musica improvisada.
Muda-se para Amsterdão em 2006 para estudar no Conservatorium van Amsterdam onde estuda com Ernst Glerum e Clemens van der Feen. Recebe o 3º prémio da Bucarest International Jazz Competition.
Termina a licenciatura em 2010 e volta para Portugal.
Neste período começa a trabalhar com Afonso Pais, Luisa Sobral, João Paulo Esteves da Silva, Mário Laginha, Júlio Resende entre outros. Estuda de forma informal com o contrabaixista e compositor Alex Erlich-Oliva, membro fundador do Opus Ensemble.
Em 2011 vence o Prémio Jovens Músicos, na primeira edição da categoria de Jazz Combo.
Recebe o Prémio Jovens Criadores, categoria de musica em 2014.
Em 2013 lança o seu primeiro album a solo “Whatever it is you’re seeking, won’t come in the form you’re expecting”, aclamado pela critica pela sua originalidade e simplicidade. Considerado o disco de Jazz do ano, pela critica especializada.
Edita em 2015 a sequela do primeiro album “Truth has to be given in riddles” que dividiu a critica ao meio. Começa em 2016 uma parceria com o guitarrista Pedro Branco e lançam dois albums “Dancing our way to Death” e “From order to Caos” novamente pela Clean Feed.
Muda-se para Copenhaga nesse mesmo ano para estudar com Kresten Osgood, Thurston Moore, Barry Guy e Torben Snekkestad na Rytmisk Muzikkonservatorium. Foi neste período que foi exposto a formas de pensar na musica, arte e processo criativo completamente divergentes e em que começa a trabalhar conceitos de multidisciplinaridade. É tambem em Copenhaga que começa a investigação de técnicas de exploração sonora eletrónica e electro-acústica.
Termina o mestrado em 2018 e regressa a Portugal onde começa a trabalhar no seu novo projecto “The Great Square of Pegasus”.
Actualmente trabalha no sentido de desenvolver uma forma pessoal de criar a partir de um ponto de vista multidisciplinar, combinando som com espaço, movimento, imagem e objecto.

Marianne Harlé nasceu em Paris a 30 de Setembro de 1998. Concluiu o 5º grau em percussão na Escola de Música do Conservatório Nacional de Lisboa e praticou variados estilos de dança ao longo dos anos. Trabalha, também, na área da Fotografia, tendo já exposto o seu trabalho na The BlackSheep Art Gallery em 2017. Terminou os seus estudos no Liceu Camões, prosseguindo o seu ensino superior na Escola Superior de Teatro e Cinema em Lisboa, no ramo de Cinema. De momento, encontra-se nas áreas de Realização e Imagem, sendo que a sua experiência pela escola passou, maioritariamente, pela realização de três projetos, dois deles em contexto de Seminário, com o projecto Retrato e o documentário Entrudo, e o mais recente em contexto da cadeira de Teoria e Prática da Realização I, À Beira do Lago. Concluiu, em 2018, a sua primeira curta-metragem independente, Impessoal, cujo percurso já lhe permitiu arrecadar dois prémios nacionais e internacionais. Actualmente trabalha, ainda, com o acordeonista João Barradas, acompanhando as gravações e tournée do seu novo albúm, Portrait. 

Clovis McEvoy é um compositor premiado, artista sonoro e investigador atualmente baseado em Berlim, Alemanha.
Clovis é especialista em música para realidade virtual e trabalha com instrumentos e eletrónica, criando software personalizado para instalações e performances interativas. Clovis também escreve para dança, teatro, curtas-metragens, música acusmática e ensembles. As suas peças têm sido apresentadas em países como EUA, França, Inglaterra, Itália, Coreia do Sul, Austrália, Nova Zelândia, Alemanha e Suíça.
A sua instalação musical inovadora, Pillars of Introspection, estreou em Inglaterra e na Austrália em 2019 e Clovis ganhou, pela segunda vez, o primeiro prémio no Douglas Lilburn Composition Prize Concert e o prémio de “Most Meritorious Performance in the Arts” na Universidade de Auckland Blues Awards.
Investigador ativo, Clovis apresentou artigos sobre relações audiovisuais, música virtual e prática de composição em conferências no Japão, Itália, Inglaterra e Nova Zelândia. Recebeu uma bolsa de financiamento da Creative New Zealand em 2015, 2017 e 2018. Em 2017, foi o vencedor do Prémio de Desenvolvimento Profissional APRA-AMCOS em composição contemporânea e em 2019 recebeu a Bolsa de Donny Charitable Trust Travelling Scholarship.

Atualmente, Clovis trabalha num conjunto de novas obras para instrumentos e eletrónica em tempo real e colabora com uma empresa de arquitetura numa nova instalação de realidade virtual para o Centro de Arte Contemporânea, Christchurch. Em 2020, será o Artista Residente no Instituto TAKT em Berlim, Alemanha, onde desenvolverá uma nova peça musical para realidade virtual.

Demian Rudel Rey (Buenos Aires, Argentina), dedica a sua produção artística como compositor de música instrumental, mista, electroacústica e visual. Na Argentina, estudou guitarra e posteriormente concluiui uma licenciatura em composição instrumental na Universidade Nacional de Artes de Buenos Aires. Posteriormente,  em França, depois de concluir um mestrado no CNSMDL (Conservatório Nacional Superior de Música e Dança de Lyon) estudando com Matalon e Hurel (composição), bem como com Tadini e Antignani, prosseguiu um Pós-Mestrado no mesmo conservatório com Jean Geoffroy.
Demian recebeu prémios em várias competições nacionais e internacionais de composição, entre as quais o Prémio Sond'Ar-te 2020 (Portugal), Young-Virtuosos Competition 2019 (Bulgária), Prix Musicworks 2017 (Canadá), Destellos 2017 (Argentina), MA/IN 2016 [Itália], CICEM 2016 [Mónaco], Indie Fest Award 2016 [EUA], entre outros.
As suas peças foram apresentadas em festivais internacionais músicos e ensembles como Quatuor Tana, Proxima Centauri, Alest, Reconsil, Atelier XX-21, Orquestra da CNSMDL, Écoute, Emily Carr String Quartet, AuditivVokal Dresden, Quartetto Mitja, Barcelona Modern, entre outros. A sua música é publicada pela BabelScores (França) , Métamorphoses (Bélgica), TEM (Itália) e CMMAS (México).
Demian recebeu bolsas de estudos CNL-Boulanger, MMSociété-Générale, Mozarteum Argentino, FNA-Argentina e BECAR.

Os seus projetos futuros incluem colaborações com Proxima Centauri, Festival Aspects des Musiques d'Aujourd'hui de Caen, EOC e um projeto de ópera.

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